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Saúde mental e vulnerabilidade social em tempos de pandemia

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O ano de 2020 está sendo acometido pela pandemia causada pelo novo coronavírus, a qual vem gerando mundialmente diversos danos nos âmbitos econômico, político, social e, sobretudo, na esfera da saúde. A Organização Mundial de Saúde (OMS) registrou 3.723,692 casos confirmados da COVID-19 em todo o mundo até o momento, cinco de maio. A estimativa é de que 257.974 pessoas já morreram; mais de 1.239,375 mil já se recuperaram da doença.

 No Brasil, vivenciamos um período de extrema tensão diante da crise de saúde pública. Há o esgotamento de equipamentos necessários para contenção da doença, como equipamentos de proteção individual – EPI’s e kits básicos de higiene; a quantidade de leitos hospitalares é insuficiente para atendimento em grande escala e faltam testes para comprovação da doença, o que implica na subnotificação de casos, consequentemente uma possível não visão real da problemática.

Soma-se a essa realidade questões de cunho social, fruto da desigualdade econômica, que trazem ainda mais apreensão à sociedade, principalmente diante do dilema de uma gama de brasileiros autônomos e informais, que encaram a recomendação de isolamento social, por parte dos órgão de saúde, e a necessidade de continuar trabalhando para garantir o sustento dos seus lares.

Em meio a esse panorama, uma importante questão que acarreta preocupação gira em torno da manutenção da saúde mental da população, especialmente frente a tantas vidas perdidas, o que nos faz experenciar um luto coletivo e uma constante sensação de medo. Nesse sentido, a Pastoral da Mulher, unidade Oblata em Juazeiro, tem buscado estratégias para dar continuidade ao acompanhamento ao público. Distante fisicamente das mulheres, temos alcançado o contato com as mesmas via telefone e redes sociais, oferecendo suporte, informações e orientações através de vídeos e posts, e por meio do atendimento psicológico e social virtual.

O público atendido pela instituição é composto por mulheres que exercem a prostituição, em sua maioria provedoras de suas famílias. Em poucos dias já observamos um perfil de aumento de ansiedade e de outros adoecimentos psíquicos, principalmente em virtude da instabilidade financeira. A imprescindibilidade de distanciamento social para a contenção da disseminação do vírus, praticamente inviabiliza a prática da atividade prostitucional, que requer aproximação física íntima.  Impossibilitadas de irem às ruas e de exercerem a atividade sexual, começam a emergir cenários de privações em diversas esferas, sobretudo, alimentícia.

“A gente ta fazendo assim, não está tomando café e nem almoçando, eu faço a comida três horas da tarde, para ser café, almoço, e janta”.

E. A. S, mulher assistida pela Pastoral

A situação das mulheres que exercem a prostituição não difere de milhões de trabalhadores autônomos e informais que desempenham um trabalho precarizado e sem direitos básicos assegurados no Brasil, contudo além das vulnerabilidades econômicas, essas ainda enfrentam preconceitos sociais e estigmas diversos. Apesar do reconhecimento pela Classificação Brasileira de Ocupações – CBO, a categoria sofre pela falta de regulamentação do exercício profissional e pela escassez de políticas públicas.

Além da questão socioeconômica, que se apresenta como um fator agravante para o adoecimento psíquico das mulheres, outro atenuante é o estresse físico e mental, como é evidenciado na fala de outra assistida:

“Estou com medo de entrar em depressão, é muita conta pra pagar e sem poder trabalhar fica difícil. Eu mesma estou com medo de mim mesma.”

J.M.

Afora o possível desencadeamento desses sofrimentos, o contexto da pandemia intensifica ainda mais as dificuldades, fragilidades e vulnerabilidades também no campo psíquico e afetivo a que essas mulheres já estavam submetidas antes da atual situação, sendo fundamental que medidas direcionadas a esse público específico incluam acolhimento e atenção psicossocial.      

Nessa conjuntura, em que fica claro que saúde não está relacionada apenas a um corpo biológico em pleno funcionamento, mas também a um equilíbrio psicológico e social e considerando a mudança ampla nos cotidianos, devemos levar em consideração várias estratégias que visem diminuir os danos e os riscos dos sofrimentos e de um possível adoecimento mental. Algumas medidas que podem ser tomadas a esse respeito são: comunicar-se regularmente com pessoas que fazem parte da rede afetiva e social, mesmo que por via de aplicativos de conversa e redes sociais; cuidar do aspecto espiritual, mantendo alguma prática religiosa que ofereça conforto e paz de espírito neste momento; fazer atividades que tragam prazer, como cantar, dançar, ler e escrever, se exercitar; além de recorrer aos dispositivos de ajuda ou assistência que estiverem disponíveis, quando for necessário.

A Pastoral da Mulher, juntamente com toda a Rede Oblata, segue em missão, comprometida em andar de mãos dadas a todas as mulheres, por uma questão de empatia e solidariedade. Mesmo usando novas dinâmicas, estamos juntas, equipes, religiosas e mulheres, nos fortalecendo no caminho da informação, da espiritualidade e da fé, para o enfrentamento desse desafio.

Texto de Fernanda Nunes – Educadora Social da Pastoral da Mulher

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Conteúdos do blog

As publicações deste blog trazem conteúdos institucionais da Pastoral da Mulher – Unidade da Rede Oblata Brasil, bem como reflexões autorais e também compartilhadas de terceiros sobre o tema prostituição, vulnerabilidade social, direitos humanos, saúde da mulher, gênero e raça, dentre outros assuntos relacionados. E, ainda que o Instituto das Irmãs Oblatas no Brasil não se identifique necessariamente com as opiniões e posicionamentos dos conteúdos de terceiros, valorizamos uma reflexão abrangente a partir de diferentes pontos de vista. A Instituição busca compreender a prostituição a partir de diferentes áreas do conhecimento, trazendo à tona temas como o estigma e a violência contra as mulheres no âmbito prostitucional. Inspiradas pela Espiritualidade Cristã Libertadora, nos sentimos chamadas a habitar lugares e realidades emergentes de prostituição e tráfico de pessoas com fins de exploração sexual, onde se faz necessária a presença Oblata; e isso nos desafia a deslocar-nos em direção às fronteiras geográficas, existenciais e virtuais. 
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