Muito além do olho roxo

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Uma das dúvidas mais frequentes entre as mulheres quanto a seus relacionamentos é a respeito do machismo do parceiro. Como, afinal, devemos traçar a linha e compreender certas atitudes do parceiro como misóginas? E como reagir a essas atitudes?
 
Muitos exemplos envolvem sinais evidentes de relacionamentos abusivos. São homens que controlam o comportamento das mulheres, ditando que tipo de roupa podem usar, se devem ou não utilizar alguma maquiagem, com quem podem manter amizade ou, em casos mais graves, com que membros da família podem manter contato. Pode parecer simples identificar um relacionamento abusivo, mas a subjugação psicológica e os laços de dependência tornam o reconhecimento da violência muito mais difícil.
 
O problema começa da forma como nossa cultura ensina que relacionamentos devem ser, reforçando idealizações de parceiros e alimentando a necessidade de dependência. Somos levados a acreditar que o amor verdadeiro envolve subjugação, como se fosse impossível sobreviver sem a outra pessoa. O ciúme também é amplamente aceito e desejado, sendo encarado até mesmo como prova de amor.
 
Os relacionamentos abusivos são repletos de controle e nem sempre começam de forma extrema. O abuso se desenvolve de maneira gradativa, até o ponto em que a vítima não consegue mais confiar em seus próprios desconfortos e também não enxerga uma saída para a situação. Muitas mulheres são levadas a pensar que já é tarde demais e a única alternativa é a resignação. Aceitar que o homem é extremamente ciumento, aceitar que o homem não gosta de roupas curtas ou coladas, aceitar que o homem “sabe o que é melhor” para o relacionamento.
 
Nesses casos, o sentimento de impotência e o medo tomam posse da vítima, de forma que xingamentos e abusos verbais passam a ser parte natural das brigas e discordâncias rotineiras. Ser xingada de puta, vadia, ter a aparência física debochada e até mesmo ouvir insinuações de que cometeu uma traição passam a ser situações comuns. O pior é que mentir para si mesma e tentar se convencer de que isso não fere tanto assim é algo perigoso. Aos poucos, a autoestima acaba se destruindo, a percepção de si como um ser humano com qualidades se esvai, a ideia de que é possível ser feliz com outra pessoa ou mesmo solteira se torna impossível. A dependência se fortalece cada vez mais e cada passo no relacionamento pode levar a uma tragédia ainda maior do que a tragédia já vivida.
 
A violência doméstica ainda vai muito além das agressões físicas, pois há também abusos psicológicos, verbais e patrimoniais. Nossa sociedade encara com naturalidade o fato de muitas mulheres ainda dependerem financeiramente dos homens, sem que perceba que a falta de autonomia financeira é um dos maiores motivos para que mulheres continuem em relações de abuso. E são poucos os que interferem quando um homem agride uma mulher em público, agindo com grosseria e palavras degradantes.
 
O resultado disso é uma quantidade exorbitante de mulheres que nem sequer sabem que estão em relacionamentos de violência, tampouco imaginam que podem recorrer a uma Delegacia da Mulher ou sequer pedir ajuda a familiares e amigos – até porque, em muitos casos, nem mesmo a família ajuda.
 
Precisamos investir em informação e acolhimento para essas mulheres, pois nem só de olho roxo se faz uma mulher violentada e destruída. Falar a respeito e não fazer concessões diante de atos abusivos seria um excelente começo. Que não tenhamos medo de confrontar a violência quando nos depararmos com ela. Assim, mais mulheres saberão que não precisam aceitar o abuso em seus relacionamentos.
 
2/3/2015
Fonte: Geledés Instituto da Mulher Negra


Conteúdos do blog

As publicações deste blog trazem conteúdos institucionais da Pastoral da Mulher – Unidade da Rede Oblata Brasil, bem como reflexões autorais e também compartilhadas de terceiros sobre o tema prostituição, vulnerabilidade social, direitos humanos, saúde da mulher, gênero e raça, dentre outros assuntos relacionados. E, ainda que o Instituto das Irmãs Oblatas no Brasil não se identifique necessariamente com as opiniões e posicionamentos dos conteúdos de terceiros, valorizamos uma reflexão abrangente a partir de diferentes pontos de vista. A Instituição busca compreender a prostituição a partir de diferentes áreas do conhecimento, trazendo à tona temas como o estigma e a violência contra as mulheres no âmbito prostitucional. Inspiradas pela Espiritualidade Cristã Libertadora, nos sentimos chamadas a habitar lugares e realidades emergentes de prostituição e tráfico de pessoas com fins de exploração sexual, onde se faz necessária a presença Oblata; e isso nos desafia a deslocar-nos em direção às fronteiras geográficas, existenciais e virtuais. 
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